AMAURI RIBEIRO, O PARLAMENTAR QUE TOMOU POSSE COM A MULHER SENTADA EM SEU COLO

AMAURI RIBEIRO, O PARLAMENTAR QUE TOMOU POSSE COM A MULHER SENTADA EM SEU COLO

Quem é e o que diz o deputado estreante na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás
O deputado estadual Amauri Ribeiro (PRP-GO) com a mulher, Cristhiane, durante a cerimônia de posse: “É muito comum ela sentar em meu colo” Foto: Reprodução
O deputado estadual Amauri Ribeiro (PRP-GO) com a mulher, Cristhiane, durante a cerimônia de posse: “É muito comum ela sentar em meu colo” Foto: Reprodução

Recém-eleito para a Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), o deputado estadual Amauri Ribeiro (PRP) é frequentemente comparado por seus eleitores ao presidente Jair Messias Bolsonaro. Ambos têm um vocabulário simples, um jeito direto de falar as coisas, um quê de brucutu de lidar com adversidades e um polêmico histórico de protagonizar cenas de quebra do decoro parlamentar.

Na comparação, Ribeiro parece sair em vantagem. Envolvido em controvérsias desde quando era apenas um anônimo comerciante em Piracanjuba, município com 25 mil habitantes, a 87 quilômetros de Goiânia, ele acumula em sua biografia episódios de rustiqueza de fazer corar o mercurial Bolsonaro. Como vereador e prefeito da cidade, a coisa foi ainda pior.

Certa vez, partiu para cima de um colega da oposição que tinha deficiência física porque discordou de sua fala, que denunciava funcionários-fantasmas na prefeitura. Em outra ocasião, agrediu um homem numa obra, quando soube que a “peãozada” não estava recebendo. “Eu danei com ele, que era uma bichona doida. O rapaz veio para meu rumo, eu tomei a enxada e contive ele”, disse, antes de pontuar que sabe técnicas de artes marciais. “Coloquei ele no chão, não dei um tapa. Levaram o cara no corpo de delito e até hoje não sei como que ele está vivo, de tantos machucados que apareceram”, ironizou. Muitas vezes, ia tomar satisfação pessoalmente na Câmara Municipal, situação que quase sempre terminava com xingamentos e dedos na cara. No meio do mandato de prefeito, deu uma surra na filha de 16 anos — que denunciou o caso à polícia — ao flagrar no celular fotos íntimas dela com um namorado, para “garantir os bons costumes”. O caso foi parar em todos os jornais da região.

Na sexta-feira dia 1º, uma fotografia do deputado viralizou nas redes sociais. De chapéu, barba por fazer e com a mulher Cristhiane Rodrigues Gomes Ribeiro, de 41 anos, sentada em sua perna esquerda, ele tomava posse para a vaga na Alego. A ÉPOCA, ele fez pouco-caso da repercussão. “Era minha esposa, não era nenhuma prostituta. Uma mulher com quem vivo há quase 25 anos e com quem tive três filhas”, disse. “E outra: é muito comum minha esposa sentar em meu colo em qualquer evento que vou na cidade.”

Aos 46 anos, alto, corpulento, com forte sotaque do interior goiano e palavrório acre, Ribeiro foi eleito com 24.922 votos, sendo o 25° mais votado em Goiás. Impressionou o eleitorado com um discurso antipolítico, de moralidade e “sem pilantragem”, como costuma dizer. “Não sou homem de duas conversas. Toda vida tive nojo da política e continuo tendo. Cada dia tenho mais raiva e nojo. Quem faz o certo é tido como errado.”

Ele contou ter virado político por acaso. Tudo começou em 2008, quando dava entrevista para uma rádio criticando o juiz da cidade. O magistrado lhe deu 24 horas para se retratar, mas o então comerciante deu de ombros. “Não sou cachorro para andar tocado”, disse. Diante da petulância, o juiz o mandou para a cadeia, onde ficou preso por 15 dias. “Eu era o mais novo da cela, com ladrão, assassino, e eu tinha de lavar o banheiro. No fim, eu venci”, disse, lembrando que o magistrado que o prendeu foi aposentado compulsoriamente, acusado de corrupção.

Após a prisão, Ribeiro ganhou popularidade, candidatou-se e foi o vereador mais votado da cidade. No PSDB, partido do então governador de Goiás, Marconi Perillo, Ribeiro era orientado a permanecer na base do chefe do Executivo municipal. “Não podia dar um pio contra o prefeito, um ladrão e vagabundo, então acabei saindo do partido.” Dos vereadores, tornou-se o único da oposição. Apenas um era neutro.

Na Câmara de Vereadores, não havia uma sessão em que Ribeiro não aparecesse com denúncias contra a administração. “Eu denunciava fraudes em licitações, e os vereadores da base defendiam. Quando algum vereador me chamava de mentiroso, eu quase pegava ele pela goela, e isso acabava gerando repercussão.” Para amenizar as críticas, Ribeiro era convidado por interlocutores a falar com o prefeito. “Queriam que eu negociasse. Eu não ia, porque se o prefeito me oferecesse dinheiro eu quebrava a cara dele.”

Com forte sotaque do interior, Amauri Ribeiro tomou posse com seu chapéu de R$ 180 e botinas de bico fino Foto: Reprodução
Com forte sotaque do interior, Amauri Ribeiro tomou posse com seu chapéu de R$ 180 e botinas de bico fino Foto: Reprodução

Sem dar pausas, emendando uma frase na outra, falando alto e xingando adversários, ele explicou a ÉPOCA por que a mulher foi parar em seu colo durante a posse. “Durante, não”, corrigiu, e continuou: “Coloca aí que foram 30 segundos”. Segundo ele, assim que chegou à Assembleia Legislativa na sexta-feira, causou estranheza nos seguranças com seu chapéu — pelo qual desembolsou R$ 180 —, a botina de bico fino e o terno alinhado. Pelo regimento da Casa, é vedado “o uso de gorros, chapéus e bonés, salvo por justificado motivo religioso ou de saúde, desde que devidamente autorizado pelo plenário”. “Como não votaríamos nada, pensei que não tinha problema”, disse. Continuou o relato afirmando que a peça é sua marca registrada, que a usa até dentro de casa. “É minha marca. Quando vou a algum evento, costumam leiloá-los”, contou.

A cerimônia corria por pouco mais de 15 minutos quando chegou ao plenário Norma Andrade Camargo, de 84 anos. Ela procurava o neto, o mais novo deputado eleito, Wagner Neto (Patriota), de 27 anos. De pé, encostou-se em uma mesa. “Minha perna começou a doer. Esperei um tempo, mas ninguém veio me ajudar”, lembrou a idosa. Durante um tempo, foi observada pelo deputado Alysson Lima (PRB). “De repente o Amauri ficou incomodado com os funcionários, que mais se preocupavam com os deputados e nada faziam para ajudar a senhora. Ele se levantou e entregou a cadeira para ela. A mulher dele se levantou, o Amauri sentou e a esposa sentou, 30, 40 segundos, na perna dele”, contou Lima.

Por telefone, Norma Camargo se emocionou com a atitude de Ribeiro. “Menino, sentar na perna do marido é mais grave que uma mulher de 84 anos de pé? Queria meu velho vivo para me sentar na perna dele. Isso mostra que ainda existe amor entre o casal.” O deputado completou: “Cedi a cadeira. Vi uma senhora de pé, encostada na mesa. Foi um ato falho meu. Se tivesse visto antes, teria cedido antes”. E ironizou: “Se eu tivesse ficado de pé, falariam: ‘Olha lá o chapeludo butinudo, não sabe se comportar’. Se eu tivesse deixado minha mulher em pé, diriam: ‘Olha lá o cavalo machista’. Sempre arrumam coisas para me difamar”.

Teria sido um cavalo machista? “Eu não sou machista!” Quando questionado sobre se sua atitude foi machista, ele tinha a resposta pronta. “Olha lá em meu gabinete. Tenho uma advogada. Comparo os currículos. Se a mulher for melhor, ela vai trabalhar comigo, sim. Trato todo mundo igual, tanto que tenho três filhas.”

Com corpo franzino, 55 quilos em 1,60 metro de altura, a mulher do deputado, Cristhiane Rodrigues, disse que não consegue entender o motivo de tanta repercussão. Na foto, ela aparece meio de lado, expressão contida, boca fechada, os braços pousados sobre as pernas, um decote profundo e os cabelos negros caindo bem abaixo dos ombros. “Eu fico lendo e sofrendo com os comentários que dizem que estava ali obrigada, sendo humilhada.” Para ela, a atitude não tem nada de chauvinista. “Quase sempre ele me ouve quando tento apaziguar seu nervosismo. Ele não é aquele homem que diz que pronto e acabou. Para você ver, eu é que escolhi o nome de nossas três filhas”, disse.

Falando baixinho, com delicadeza, Cristhiane reforçou ser normal, dentro de casa e em eventos de família, sentar-se na perna do marido. “É uma forma de ficar mais perto dele. Claro que ali não era lugar apropriado, mas tinha um motivo. Faltava cadeira, e uma boa atitude de Amauri, de dar a cadeira para a avó do deputado, acabou transformando aquilo em algo inapropriado”, esclareceu.

O resultado das descomposturas de Ribeiro chegou em 2015. Por causa da agressão ao homem na obra quando ainda era vereador, ele foi afastado do cargo de prefeito por um mês. “Foi a melhor coisa do mundo. Era problema demais na minha cabeça”, brincou. Depois, voltou ao estilo habitual até terminar o mandato. Arrependimento, aliás, não é uma palavra que conste em seu vocabulário. “Homem que é homem tem de ter palavra. Tem de falar e cumprir. Eu nunca dei um safanão, um catiripapo ou contive alguém que tem caráter. Sempre é gente sem palavra. Homem tem de ter palavra. E mulher tem de ter postura de mulher.” Sobre a agressão à filha, ele também afirmou ter feito a coisa certa. “Fiz o que qualquer pai faria para manter os bons costumes. Se eu não tivesse feito aquilo, tinha perdido minha filha para o mundo. Hoje ela é meu grande orgulho. E faria de novo, com ela ou com qualquer uma de minhas filhas, para que elas me respeitassem.”

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