Bolsonaristas remoem derrota e governo fica mais refém do Centrão

Bolsonaristas remoem derrota e governo fica mais refém do Centrão
Por Marcelo de Moraes
Por Marcelo de Moraes
Aliados do presidente admitem que se não houver autocrítica e correção de rumos reeleição poderá ser ameaçada.Caiu a ficha. Jair Bolsonaro não precisava, mas decidiu apoiar e apostar em candidaturas alinhadas ao seu projeto político em capitais que considerava estratégicas. O movimento do presidente, porém, não foi bem-sucedido e seus candidatos foram derrotados na imensa maioria dos casos. Depois de apoiar a onda bolsonarista em 2018, o eleitor deixou claro nas eleições municipais que estava rejeitando candidatos que representassem radicalismo e a antipolítica praticada pelo presidente. Com derrotas feias em São Paulo, Recife, Manaus e Belo Horizonte e perto de perder também no Rio e em Fortaleza, Bolsonaro e seus aliados começaram a entender a mensagem das urnas.

 

 

Autocrítica. Um dos primeiros a vir a público para fazer a autocrítica foi o assessor especial da Presidência Filipe G. Martins. “Enquanto batíamos cabeça para fazer o básico e tentar nos organizar, a esquerda se renovou, assimilou as lições de 2018 e soube usar a internet e a nova realidade política a seu favor. Ou fazemos a devida autocrítica, ou nossos erros cobrarão um preço ainda maior no futuro”, escreveu nas suas redes sociais, logo depois da apuração dos votos. Nesta segunda, voltou ao problema. “Também diria que temos que entender que nossa vitória em 2018 foi circunstancial, fruto de uma conjunção de fatores ocasionais com o arbítrio de nosso povo. Vencemos porque tínhamos o melhor candidato e também porque tínhamos uma conjuntura favorável, construída desde 2013”, disse.

 

 

 

Erro só dos outros. Claro que essa avaliação é rasa. Os bolsonaristas querem acreditar que lhes faltou apenas o “profissionalismo” do Centrão. Não é só isso. Bolsonaro tem sua rejeição subindo nas maiores cidades por conta do coronavírus, da crise econômica, do desemprego, da política ambiental, entre tantos problemas. Celso Russomanno já era um candidato difícil de ser ajudado mesmo com Bolsonaro forte. Mas com uma rejeição superior a 50% na capital paulista, não havia muito o que fazer.

 

 

 

Nas mãos do Centrão. Martins acabou rompendo o silêncio constrangedor que impedia que se dissesse ao presidente que a eleição tinha sido ruim para o bolsonarismo e boa para seus adversários. Vencendo na maioria das cidades, os partidos do Centrão se cacifaram ainda mais para poder pressionar Bolsonaro a atender seus infinitos pleitos. Sem força para eleger sozinho seus candidatos, o presidente vê desenhado um cenário em que precisará, mais cedo ou mais tarde, se associar de vez com o Centrão para brigar pela reeleição. E a história mostra que o Centrão troca de aliado assim que percebe seu enfraquecimento. A ex-presidente Dilma Rousseff que o diga.

 

 

 

Carteirada não cola. Martins só falou o que os bolsonaristas da ala ideológica já tinham consensuado: ou o grupo acorda ou perderá o poder. “Muitos se perguntam por que candidatos apoiados por cabos eleitorais de peso foram derrotados. A resposta é simples: perderam porque eleição municipal é base, é construção, não é improviso. Não adianta chegar às vésperas da eleição e dar carteirada nem tentar levar no grito”, escreveu.

 

 

 

Negacionismo. O problema é que Bolsonaro, logo depois da votação, adotou uma espécie de negacionismo eleitoral. Cercado por bajuladores, o presidente tentou emplacar uma narrativa a seu favor. “Há 4 anos, Geraldo Alkmin elegeu João Dória prefeito de São Paulo no primeiro turno. Dois anos depois, Alckmin obteve apenas 4,7% dos votos na disputa presidencial”, disse, tentando mostrar que a eleição municipal teria pouco impacto sobre a sucessão nacional. “Minha ajuda a alguns poucos candidatos a prefeito resumiu-se a quatro lives num total de 3 horas”, alegou, embora tenha se movimentado intensamente para empurrar seus aliados. “A esquerda sofreu uma histórica derrota nessas eleições, numa clara sinalização de que a onda conservadora chegou em 2018 para ficar”, disse ainda na noite de domingo. Negacionismo em todo o seu esplendor.

 

 

 

Clima de festa. Com o presidente em negação, seus adversários festejaram a vitória. “O presidente não vai se esquecer dessa derrota”, me disse o governador de São Paulo, João Doria, enquanto falávamos sobre o cenário político que se desenhava depois da eleição. Doria festejou o primeiro lugar do prefeito Bruno Covas em São Paulo. Mas sabe que outro grande vencedor da eleição é justamente Guilherme Boulos (Psol), adversário do prefeito e que imediatamente seus preparativos para se fortalecer em São Paulo e tentar vencer no segundo. A ascensão de Boulos e do Psol é uma das principais novidades da disputa. E assombra ainda mais os bolsonaristas.

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