Brumadinho: envoltos em lama, moradores do entorno querem se mudar

Brumadinho: envoltos em lama, moradores do entorno querem se mudar

Na área do Parque da Cachoeira, horta que abastecia a região foi totalmente soterrada. Pequenos produtores também pararam atividades

Bárbara Ferreira, Especial para o Metrópoles

BÁRBARA FERREIRA, ESPECIAL PARA O PALMASAQUI

A lama da Barragem I, da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), atingiu grande parte da zona rural do município. As comunidades conhecidas como Parque da Cachoeira e Córrego do Feijão – essa última com o mesmo nome do rio pivô do desastre – foram os vilarejos mais afetados. E até mesmo para aqueles que tiveram a sorte de manterem as suas casas, o convívio diário com a lama modificou totalmente a rotina.

Envoltos em lama e sem a possibilidade de trabalhar ou seguir normalmente com as suas vidas, os moradores procuram auxílio nos centros de apoio e reivindicam condições para que possam se mudar. O mau cheiro, a impossibilidade de produzir e o medo de intoxicação são as principais aflições de quem ficou.

O aposentado Idalino Silva Santos, 67, é morador do Parque da Cachoeira e vive com a esposa em uma chácara a cerca de 10km da barragem que se rompeu. A sua casa não foi atingida pelos rejeitos de minério, mas ele afirma não ter condições de permanecer em casa devido aos odores e à falta de estrutura, toda destruída pelo rompimento das barragens. A mulher, de 71 anos, está na casa do filho do casal, em Belo Horizonte. Idalino ficou.

“A Cachoeira (Parque da Cachoeira) não tem graça mais. Morar sem alegria não dá e aqui, a alegria acabou! Eu ainda tenho a minha casa, mas o cheiro me faz querer sair. Os restos mortais das pessoas que estão ali embaixo da lama vão descer para a água e daqui a pouco nem ela a gente vai poder usar mais. Ficou muito complicado viver aqui”, lamenta o aposentado.

Bárbara Ferreira/Metrópoles

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Santos se mudou para Brumadinho há oito anos, e conta que escolheu aquele pedaço de terra para morrer com tranquilidade, quando chegasse a sua hora, longe da agitação de uma grande cidade. Após a tragédia, ele afirma que seu sustento também foi comprometido, já que ele e a companheira produziam doce de leite para aumentar o orçamento doméstico. A fazenda que fornecia leite para o casal foi completamente destruída pela lama.

“A fazenda acabou e a venda do doce era uma ajuda nas despesas da casa. Agora não temos mais o que fazer. Gastei R$ 22 mil nesta chácara e não posso apenas deixar a casa aqui. Preciso de dinheiro ou algum auxílio para poder recomeçar a vida em outro canto. Eu não estou bem de saúde, minha esposa tem problemas seríssimos também. A gente não pode ficar saindo daqui para fazer tudo”, explica Santos.

O mau cheiro os impede de dormir e os mosquitos aumentaram significativamente. Santos conta que está com as pernas todas irritadas, mas ainda não sabe se são os insetos ou a água.

O aposentado Angel Pantaleão, 68, também quer se mudar. A lama, a impossibilidade de produzir e as dificuldades de acesso são os principais motivos. Pantaleão perdeu a sua esposa no dia da tragédia e estava em Belo Horizonte, no Hospital das Clínicas, quando soube do que havia acontecido. Enquanto viva o luto e organizava o sepultamento de sua mulher, ansiava pelo que encontraria em casa. Dois dias depois chegou em casa e viu que ela havia resistido, mas vê a lama de sua varanda.

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“Quando cheguei em casa ela (a lama) já estava lá. O seu impacto nos atinge, né. Pessoas ficaram sem emprego, estamos com medo das consequências e a gente tinha a horta. Ela era grande e fazia muita diferença para todos nós que moramos aqui. Foi completamente destruída”.

A horta, a qual o o aposentado se refere, era uma grande produção de hortaliças, empregava muitas pessoas da comunidade e abastecia Brumadinho e vários municípios vizinhos da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Pantaleão tem medo de contaminação, medo do rejeito atingir a água que abastece a sua casa e também quer se mudar. Ele conta que é uma tristeza sem fim acordar e ver a lama em sua porta todos os dias. Para ele, a empresa não podia ter permitido isso, e o que mais o indigna é a notícia de que eles sabiam que a barragem tinha problemas e não fizeram nada. “Poderiam ter evitado mortes e tanto prejuízo para todos nós. Agora espero que consigamos algum reparo para reconstruirmos a vida”, finaliza.

Tanto Pantaleão como Santos fizeram o seu cadastro no centro de apoio que está instalado no Parque da Cachoeira, apresentaram a documentação referente às suas casas e agora aguardam uma solução para sanar o sofrimento que chegou com a avalanche de lama.

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