Deputado Ricardo Ayres comprou fazenda de Criminoso do Rio de Janeiro foi lavagem de dinheiro?

PATRIMÔNIO OCULTO

Capitão Adriano possuía três fazendas no Tocantins; deputado comprou uma, aponta Veja

Fazenda foi vendida para o deputado estadual Ricardo Ayres.

Por Revista Veja
16/10/2020 10h12 – Atualizado há 1 hora

Fazenda que era do ex-policial fica em Pindorama

O cartório do município de Pindorama do Tocantins, a 200 quilômetros de Palmas, guarda um documento que pode ajudar as autoridades do Rio de Janeiro a puxar o fio de uma grande meada.

No livro de registro de imóveis da cidade consta que, em maio deste ano, o “agropecuarista” João da Silva vendeu para o deputado estadual Ricardo Ayres (PSB) uma fazenda de 534 hectares por R$ 800 mil.

As terras ficam numa área inóspita, cujo acesso se dá por uma estrada de terra. Apesar disso, segundo corretores da região, a propriedade valia ao menos duas vezes mais.

Mas não é só isso que chamou a atenção para o negócio. João, o vendedor, não era o dono verdadeiro. Era apenas o laranja, aquele que assume a responsabilidade por alguma coisa que não é sua para proteger a identidade de alguém que não pode ou não quer aparecer. O verdadeiro dono era o ex-policial Adriano da Nóbrega.

FAZENDA BOA ESPERANÇA

Em junho de 2018, quando a fazenda Boa Esperança foi comprada por João da Silva, Adriano, um personagem ainda desconhecido para a maioria dos brasileiros, não queria aparecer.

Na época, o Ministério Público do Rio de Janeiro começava a aprofundar as investigações sobre as rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, especialmente no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. A mãe e a ex-mulher do ex-policial trabalhavam com o filho do presidente da República, e a suspeita é de que ambas participavam do esquema.

Adriano era amigo e parceiro de Fabrício Queiroz, apontado pelos promotores como o responsável pelo recolhimento de parte dos salários dos funcionários. Em janeiro de 2019, o ex-policial teve a prisão decretada, sob a acusação de chefiar um grupo de matadores que operava para uma milícia carioca. Depois disso, Adriano também não podia aparecer.

PATRIMÔNIO DE R$ 10 MILHÕES

Morto em fevereiro deste ano, o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) tinha pelo menos 10 milhões de reais, entre valores em espécie e bens registrados em nome de laranjas, segundo pessoas próximas a ele. O ex-policial era dono de terras, casas, apartamentos, cavalos de raça, carros, empresas e pontos de jogo clandestino que lhe rendiam muito dinheiro. Nada disso, porém, estava em nome dele.

O Ministério Público e a Polícia Civil do Rio tocam investigações a fim de rastrear a localização dessa herança deixada por Adriano e tentam identificar quem se beneficia ou se apropriou dela.

TRÊS FAZENDAS NO TOCANTINS

Só no Tocantins, o ex-policial seria dono de três fazendas registradas em nome de laranjas. A Boa Esperança pode ser um ponto de partida para mapear esse tesouro oculto.

Em Pindorama, não é segredo para ninguém que o ex-policial era o verdadeiro dono das terras. A propriedade, que pertencia a Florair Turíbio de Souza, foi adquirida em junho de 2018 por R$ 938 mil e registrada em nome de João da Silva, conhecido na cidade como “João de Dego”, que na época era funcionário de Adriano. Em maio passado, três meses após a morte do ex-capitão, João revendeu a terra, por R$ 800 mil, ao deputado estadual Ricardo Ayres.

De origem humilde e atualmente sem remuneração fixa, João disse à Revista VEJA ter comprado a fazenda com prêmios que recebeu participando de torneios de vaquejada e comissões obtidas ao intermediar a venda de cavalos.

“Sou corredor de vaquejada. Já ganhei mais de quarenta motos e uns dez carros. O Adriano me contratou para correr para ele me pagando um bom salário”, afirmou João, garantindo que a fazenda lhe pertencia. Segundo o “agropecuarista”, Adriano, que era acionado por vaquejadas, ficava com os troféus e ele com todo o dinheiro dos prêmios. Essa versão é desmentida pelos ex-proprietários da fazenda.

Gilvan Turíbio Mascarenhas, filho de Florair, que vendeu a propriedade formalmente para João da Silva, confirmou a VEJA que o verdadeiro comprador das terras foi Adriano da Nóbrega.

De acordo com Gilvan, uma irmã do ex-capitão acompanhou o registro da transação no cartório da cidade, fez os pagamentos devidos e mandou os comprovantes por e-mail.

“Eu vi o Adriano duas vezes aqui em Pindorama. Ele estava sempre junto com o João de Dego. Foi o Adriano que comprou, fez o pagamento e passou para o nome de João”, disse Gilvan, ressaltando que um dos depósitos foi feito por Raimunda Veras, mãe do ex-capitão.

A VEJA visitou a fazenda, que fica a 22 quilômetros da cidade — é cercada por arame farpado, a vegetação é fechada e dentro dela mora uma família de posseiros. Edinilson Custódio de Jesus ocupa uma área de 6 alqueires há 21 anos. Ele contou que, há dois anos, foi avisado de que a propriedade mudaria de dono.

“Eu soube que esse tal de Adriano comprou a terra e passou para o nome do João de Dego. Depois soube que mataram ele, aí o João pegou e vendeu”, relatou o posseiro.

O QUE DIZ O DEPUTADO

O comprador da Boa Esperança, o deputado Ricardo Ayres, afirmou, por e-mail, que o negócio foi regular: “Interessei-me pela aquisição por ser a fazenda vizinha de outra de minha titularidade. Desconheço que a citada fazenda seria de Adriano da Nóbrega”.

NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS

As atividades clandestinas do ex-policial lhe renderam uma fortuna. A VEJA apurou que o faturamento mensal de Adriano variava de 250.000 a 350.000 reais, obtidos com seus negócios imobiliários e, principalmente, com o ramo da jogatina.

A morte do ex-capitão não fez seus antigos empreendimentos pararem. As cobranças de aluguéis de apartamentos em construções irregulares, por exemplo, continuam, mas os valores agora são embolsados por antigos sócios. O mesmo acontece no caso do jogo. Adriano gostava de investir em cavalos. Um de seus xodós era o quarto de milha Dakar, que foi comprado por cerca de R$ 150 mil e brilhou em competições de vaquejada. Outro destaque do plantel era o também quarto de milha Mega San, que foi arrematado por cerca de R$ 90 mil. Familiares e antigos parceiros dividiram o espólio.

Raimunda e Danielle, respectivamente, mãe e ex-mulher do policial

Raimunda Veras foi funcionária de Flávio Bolsonaro na Alerj entre 2016 e 2018. Dona de dois restaurantes que seriam usados para lavar dinheiro, a mãe de Adriano conseguiu a vaga graças à proximidade do filho com Queiroz. Os dois trabalharam juntos no 18º Batalhão da Polícia Militar. Pelas mãos de Queiroz, também foi empregada no gabinete do filho Zero Um do presidente a ex-mulher de Adriano, Danielle Mendonça da Nóbrega. Certidões obtidas em cartórios do Rio mostram que Danielle participou de várias transações imobiliárias com Adriano.

Quando o escândalo da rachadinha veio à tona, Adriano orientou a sua ex-mulher a não prestar depoimentos ao Ministério Público: “O amigo pediu pra você não ir em lugar nenhum e também não assinar nada”. Danielle respondeu que tinha acabado de sair do “advogado indicado” e mandou a foto de um ofício do MP que ela assinara. “Vou passar pra ele”, para o amigo, retrucou Adriano. Os investigadores acreditam que o tal amigo era Fabrício Queiroz.

Além de segredos sobre o caso da rachadinha, Adriano guardava consigo informações sobre as relações entre contraventores e autoridades do Rio, azeitadas graças ao pagamento de propinas.

Reportagem da VEJA de fevereiro passado revelou que, antes de morrer, o ex-capitão contou a sua mulher, Júlia Lotufo, que teria repassado dinheiro para custear a campanha de Wilson Witzel, que à época tinha como principal cabo eleitoral justamente o hoje senador Flávio Bolsonaro.

Adriano foi morto pela polícia da Bahia numa operação até hoje não devidamente esclarecida. Mas, cedo ou tarde, seus segredos virão à tona.

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