Interpretação Bíblica – Os pais da igreja dos séculos V e VI

Interpretação Bíblica – Os pais da igreja dos séculos V e VI

Sete nomes destacam-se entre os pais da igreja dos séculos V e VI, embora Jerônimo e Agostinho sejam os mais conhecidos. ” Jerônimo (c. 347-419) começou adotando a alegorização de Orígenes. Sua primeira obra exegética, Comentário sobre Obadias, foi alegórica. Posteriormente, porém, assumiu um estilo mais literal, depois de ter sido influenciado pela escola antioquina e pelos mestres judeus. O último comentário que escreveu foi sobre Jeremias e seguia a linha literal. Mas ele acreditava que um sentido mais profundo das Escrituras poderia ser desvendado a partir do sentido literal. Ou, quando este não era nada edificante, ele o descartava. Foi por isso que alegorizou a história de Judá e Tamar (Gn 38), Depois de muito viajar, fixou-se em Belém, em 386 d.C. Em clausura, escreveu comentários sobre a maioria dos livros da Bíblia e traduziu-a para o latim. Essa tradução — a Vulgata — foi sem sombra de dúvida sua maior obra. Tertuliano ajudou a abrir o caminho para a autoridade e para a tradição da igreja.

Vicente, que faleceu antes de 450, adotou esse destaque e conferiu-lhe uma clareza ainda maior. Em seu Commoniíorium (434 d.C.), ele diz que as Escrituras conheceram sua exposição definitiva na igreja primitiva. “A linha de interpretação dos profetas e apóstolos precisa seguir a norma dos sentidos eclesiástico e católico.” A referida “norma” incluía as decisões dos conselhos eclesiásticos e as interpretações dos pais. Sua autoridade hermenêutica era: “O que sempre foi crido por todos, em toda a parte”. Assim sendo, os três testes para verificar o sentido de uma passagem baseavam-se na universalidade, na idade do texto e no bom senso. Agostinho (354-430) foi um teólogo proeminente que exerceu grande influência na igreja durante séculos, No início, era maniqueísta. O movimento maniqueísta, que começou no século III d.C., desmerecia o cristianismo ressaltando os antropomorfismos absurdos do Antigo Testamento. Essa perspectiva dificultava seu entendimento do Antigo Testamento.

A tensão foi resolvida, no entanto, quando ele ouviu Ambrósio na catedral de Milão, na Itália. Ambrósio tinha o hábito de citar 2 Coríntios 3.6: “… a letra mata, mas o Espírito vivifica”. Foi assim que Agostinho adotou o estilo alegórico como forma de solucionar os problemas do Antigo Testamento. Em sua obra De Doctrina Christiana, escrita em 397, ele salienta que a forma de descobrir se uma passagem tem sentido alegórico (e a maneira de se resolverem problemas de exegese) é consultar “a regra da fé”, ou seja, o ensinamento da igreja e da própria Escritura. Contudo, nessa mesma obra Agostinho desenvolveu o princípio da “analogia da fé”, segundo o qual nenhuma interpretação é aceitável se for contrária ao sentido geral do restante das Escrituras. No terceiro volume de De Doctrina Christiana, ele apresenta sete regras de interpretação, mediante as quais procura criar um fundamento racional para a alegorização. São elas:

1. “O Senhor e seu corpo.” As referências a Cristo quase sempre também se aplicam a seu corpo, a igreja.

2. “A divisão em dois feita pelo Senhor ou a mistura que existe na igreja.” A igreja pode conter tanto hipócritas quanto cristãos genuínos, representados pelos peixes bons e maus apanhados na rede (Mt 13.47,48).

3. “Promessas e a lei.” Algumas passagens estão relacionadas com a graça e outras com a lei; algumas ao Espírito, outras à letra; algumas às obras, outras à fé.

4. “Espécie e gênero,” Certas passagens dizem respeito às partes (espécie), enquanto outras referem-se ao todo (gênero). Os cristãos israelitas, por exemplo, são uma espécie (uma parte) dentro de um gênero, a igreja, que é o Israel espiritual.

5. “Tempos.” Discrepâncias aparentes podem ser resolvidas inserindo uma afirmação em outra. Por exemplo, a versão de um dos evangelhos de que a Transfiguração ocorreu seis dias após o episódio em Cesaréia de Filipe insere-se dentro da versão de outro evangelho, que registra oito dias. E o significado dos números quase nunca é o matemático exato, mas sim o de ordem de grandeza.

6. “Recapitulação.” Algumas passagens difíceis podem ser explicadas quando vistas como referindo-se a um relato anterior. O segundo relato sobre a Criação, em Gênesis 2, é entendido como uma recapitulação do primeiro relato, em Gênesis 1, não como uma contradição a ele.

7. “O diabo e seu corpo.” Algumas passagens que falam do diabo, como Isaías 14, estão mais relacionadas a seu corpo, isto é, a seus seguidores.
Segundo o sistema de interpretação bíblica de Agostinho, o grande teste para saber se uma passagem tem sentido alegórico é o do amor. Se a interpretação literal indica dissensão, o texto deve ser alegorizado.

Ele salientou que a função do expositor é desvendar o sentido das Escrituras, e não lhes atribuir sentido. Mas ele incorreu justamente no erro que contestava, pois afirmou que “o texto bíblico possui mais de um sentido, o que justifica o método alegórico”. O sistema de alegorização de Agostinho ensinava que os quatro rios de Gênesis 2.10-14 eram quatro virtudes fundamentais e que, no episódio da Queda, as folhas de figueira representavam a hipocrisia e o cobrir a carne, a mortalidade (3.7, 21). A embriaguez de Noé (Gn 9.20-23) simbolizava o sofrimento e a morte de Cristo. Os dentes da sulamita, em Cantares 4.2, simbolizavam a igreja “arrancando os homens da heresia”. João Cassiano (c. 360-435) era um monge da Cítia (a atual Romênia).

Ele pregava que a Bíblia tinha um sentido quádruplo: histórico, alegórico, tropológico e anagógico. Com “tropológico”, ele se referia ao sentido moral. O termo grego tropê, que significa “desvio”, indica que uma palavra adquire sentido moral. Com “anagógico”, referia-se a um significado oculto, celestial, do grego anagein, que se traduz por “fazer subir” , Cassiano compôs a cantiga de quatro versos que se tomou famosa ao longo de toda a Idade Média:

Littera gesta docet,

Quid credas allegoria,

Morcilis quid agas,

Quo tendas anagogia.

Traduzida, significa o seguinte:

A letra ensina os acontecimentos

[/. e., o que Deus e nossos ancestrais fizeram],

O que você crê é [ensinado] pela alegoria,

[O ensinamento] Moral é o que você faz,

Seu destino é [ensinado] pela anagogia.

 

Mickelsen propôs uma paráfrase rudimentar que conservasse a rima em seu idioma, que no português seria:

Os feitos de Deus e de nossos Pais, a letra conta;

O fundamento da nossa fé, a alegoria aponta;

As regras do dia-a-dia, o sentido moral desvela;

Onde termina nossa porfia, a anagogia revela.

Segundo esse método, Jerusalém pode ter quatro significados: historicamente, a cidade dos judeus; alegoricamente, a igreja de Cristo; tropologicamente (ou moralmente), a alma humana e anagogicamente, a cidade celestial, Euquério de Lião, que morreu por volta de 450, tentou provar em seu livro As Regras da Interpretação Alegórica a presença de linguagem simbólica nas Escrituras. Ele defendia seu modo de ver argumentando que, da mesma forma que não se jogam pérolas aos porcos, as verdades bíblicas são vedadas às pessoas não-espirituais.

Portanto, os antropomorfismos auxiliam os leigos, mas existem outros indivíduos que conseguem enxergar além, percebendo os significados mais profundos das Escrituras. Mas Euquério também percebia nas Escrituras uma “discussão histórica”, isto é, um sentido literal. Adriano de Antioquia elaborou um manual de interpretação chamado Introdução às Sagradas Escrituras, por volta de 425 d. C. Nesse trabalho, ele afirma que os antropomorfismos não devem ser interpretados ao pé da letra. Tratou também de expressões metafóricas e estilos de retórica. Ressaltou que o literalismo é um processo primário e que os intérpretes da Bíblia precisam transcender o entendimento literal para atingirem os significados mais profundos. Junílio redigiu um manual de interpretação intitulado As Regras da Lei Divina, em 550 aproximadamente.

Ele afirmou que a fé e a razão não são pólos opostos. A semelhança de Adriano, declarou que a interpretação da Bíblia deve partir da análise gramatical, mas não pode limitar-se a ela. Ele via quatro espécies de tipos nas Escrituras, as quais podem ser ilustradas com os seguintes exemplos: a ressurreição de Cristo é um alegre tipo de nossa alegre ascensão futura; a triste queda de Satanás é tipo da nossa triste queda; a triste queda de Adão é tipo (por contraste) da alegre justiça de nosso Salvador e a alegria do batismo é tipo da tristeza da morte do Senhor. A partir do exemplo desses pais da igreja dos séculos V e VI, fica evidente que Jerônimo, Vicente e Agostinho abriram caminho para duas tendências que haveriam de durar mais de mil anos: a alegorização e a autoridade da igreja. Cassiano, Euquério, Adriano e Junílio apoiaram-se no método alegórico de Agostinho, fortalecendo assim tal método de interpretação bíblica, para que perdurasse durante os séculos seguintes da Idade Média.

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags 44-48

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