Mais de 700 moradores de duas cidades de MG são retirados da região por risco em barragens

Mais de 700 moradores de duas cidades de MG são retirados da região por risco em barragens

Em Cocais, a prefeitura informa que uma sirene foi acionada e que o procedimento está sendo realizado por precaução; cerca de 65 famílias em Itatiaiuçu foram retiradas de suas casas por volta das 4h

Leonardo Augusto, especial para O Estado, Giovana Girardi, Jéssica Otoboni e Ana Paula Niederauer, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2019 | 06h52
Atualizado 08 Fevereiro 2019 | 13h35

BELO HORIZONTE – Cerca de 500 moradores do município de Barão de Cocais, a 80 km de Belo Horizonte, foram retirados de suas casas na manhã desta sexta-feira, 8, depois que soou uma sirene que monitora a barragem da Vale. A informação é da Prefeitura da cidade e surge duas semanas após o rompimento da barragem 1 da mina Córrego do Feijão de Brumadinho, que deixou mais de 150 mortos e cerca de 180 desaparecidos.

O Corpo de Bombeiros afirmou que também foram evacuadas cerca de 65 famílias da cidade de Itatiaiuçu, que foram deslocados em razão do risco de rompimento da barragem que pertence à mineradora ArcelorMittal.

Vale Mineradora

A Vale informou que está intensificando as inspeções na barragem Sul Superior como medida de segurança Foto: Ricardo Moraes / Reuters

O coordenador adjunto da Defesa Civil de Minas Gerais coronel Flávio Godinho, afirmou hoje, 8, que as minas em Barão de Cocais e Itatiaiçu foram paralisadas. “As operações nas duas minas estão temporariamente suspensas e só retomarão as atividades após as empresas Vale e ArcelorMittal apresentarem os laudos comprovando a estabilidade das barragens”. As informações foram repassadas pelo governo de Minas.

Em nota no Facebook, a Prefeitura de Barão de Cocais informou que diante de observações e monitoramentos realizados pela Agência Nacional de Mineração (ANM), Defesa Civil do Estado e do município, e pela empresa Vale, foi acionado o Nível 2 de risco na barragem Sul Superior da Mina do Gongo Soco. A informação até esse instante é de um desnível na estrutura. “Por esse motivo, seguindo as recomendações repassadas pelos entes responsáveis e pela mineradora, os moradores da comunidade do Socorro e adjacências estão sendo evacuados neste momento por ônibus da Vale e demais veículos de apoio.”

A Prefeitura de Barão de Cocais ressalta que o procedimento está sendo realizado por precaução. Conforme a administração municipal, os moradores estão sendo encaminhados ao ginásio poliesportivo da cidade.

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Veja momento em que barragem se rompe em Brumadinho

De acordo com um comunicado da Vale, a retirada de pessoas foi determinada depois que a ANM foi informada pela mineradora que ela estaria dando início ao nível 1 do Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM). A nota ressalta ainda que a decisão é preventiva e foi tomada após a empresa de consultoria Walm negar a Declaração de Condição de Estabilidade à estrutura.

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Os deslocamentos começaram durante a madrugada e abrangem comunidades de Socorro, Tabuleiro e Piteiras, todas em Barão de Cocais.

A Vale informou que está intensificando as inspeções na barragem Sul Superior como medida de segurança e implantado equipamentos com capacidade de detectar movimentações milimétricas na estrutura.

O tenente e porta-voz do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, Pedro Aihara, afirmou que as pilhas de rejeitos das duas barragens são menos líquidas e molhadas em comparação a que rompeu em Brumadinho. “Os volumes também são menores, com a composição do rejeito mais seca”, disse em coletiva de imprensa.

Segunda o coronel Evandro Borges, da Defesa Civil, as familiares poderão retornar às casas apenas quando um laudo técnico, referendado por um órgão competente, atestar que não há risco. “Não existe, nessas duas cidades, nenhum rompimento de barragem. A evacuação foi uma forma de prevenção.”

Famílias tiradas de casa

Uma das famílias deslocadas é a de Beatriz Ferreira Couto, que abandonou a casa na comunidade de Socorro por volta de 3 horas, quando foi acordada por um sobrinho do marido. “Eu mesma não acordei com a sirene, ouvi depois só. Moramos mesmo muito perto, a barragem está uma montanha atrás da gente. Tivemos tempo apenas de pegar os documentos”, conta Beatriz. Ela, a filha, de 14 anos, o marido e uma vizinha correram para um ponto mais alto e, de lá, foram transportados em um ônibus da Vale para o ginásio poliesportivo da cidade.

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Da esquerda para direita, Emilly, Beatriz e Alessandra Aparecida, vizinha da família Foto: Giovana Girardi/ Estadão

Todos disseram que nunca tinham temido a barragem Sul Superior, nem mesmo depois do desastre de Brumadinho. “Até ouvi helicóptero passando por lá ontem, mas não achei que era nada. Aí hoje fomos acordados assim.”

A barragem Sul Superior recebia os rejeitos da mina de Gongo Soco. A extração de minério de ferro do local foi paralisada, segundo a Vale, em abril de 2016.

Emilly Rodrigues da Silva, filha de Beatriz, conta que fez uma visita ao local recentemente e viu ao pé da barragem acúmulo de água. “Parecia uma lagoa”, diz. A família lamenta que teve de deixar todos os bichos para trás. “Ficou um casal de calopsita, galinhas, cachorro, peru, ganso, gato…”, enumera com tristeza Beatriz.

Outra moradora que estava desolada de ter deixado seus animais para trás é Maria Gonçalves Lopes, de 79 anos, moradora da comunidade Três Moinhos, que também recebeu alerta de evacuação por ter moradores ribeirinhos à beira do Rio São João. Ela foi retirada pela filha, Maria da Conceição, que mora em outro bairro, mas soube do alerta por um parente e saiu correndo com o marido para resgatar a mãe. “Já estou com saudade das minhas galinhas, tadinhas.”

O filho mais novo de Maria é funcionário da Vale e trabalha na mina de Brucutu, próxima à região e que teve as atividades paralisadas no início da semana. A barragem Laranjeiras fica à jusante de Cocais, mas não tem ligação com o alerta desta sexta. “Hoje a gente teme por ele, mas antes não achava que nada poderia acontecer. Só soubemos do risco depois de Brumadinho”, afirma Conceição.

De acordo com a Vale, a Sul Superior é uma das dez barragens a montante inativas remanescentes da empresa e faz parte do plano de aceleração de descomissionamento anunciado no dia 29, quatro dias após o desastre de Brumadinho.

Itatiaiuçu

Cerca de 200 pessoas do bairro de Pinheiros, em Itatiaiuçu, a 80 quilômetros de Belo Horizonte (MG), foram retiradas de suas casas por volta das 3 horas desta sexta-feira, nas proximidades da barragem de rejeitos de Serra Azul da empresa ArcelorMittal no município. Elas foram retiradas das casas por bombeiros e policiais e foram levadas para um hotel. Não ocorreu acionamento de uma sirene.

Segundo o sargento Leandro Faria, do 2º Pelotão de Bombeiros de Itaúna, que fica a 32 quilômetros de Itatiaiuçu, o Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 2 horas, por medida de precaução após riscos estruturais da mina. A Defesa Civil solicitou à mineradora faça o resgate de animais.

A mina de Serra Azul produz 1,2 milhões de toneladas de concentrado e minério granulado. A barragem de rejeitos, que é do tipo a montante – mesmo modo de construção das que romperam em Mariana e Brumadinho -, está desativada desde outubro de 2012.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, se houver o rompimento da barragem, os rejeitos podem atingir a BR-381, que liga Belo Horizonte a São Paulo e o Rio Manso.

Em nota, a ArcelorMittal informou que a medida foi de precaução, visto que a comunidade se situa a 5 km de distância da barragem. A empresa concluiu que não se pode correr absolutamente “nenhum risco, e que, apesar do transtorno para a comunidade, esta é a decisão correta”.

Segundo o presidente da empresa no Brasil, Benjamin Baptista, ainda não há previsão de retorno das famílias retiradas do local. “Pedimos desculpas à comunidade local pelo transtorno. Procuraremos retornar as pessoas para suas casas o tão logo possível, embora à esta altura não seja possível dizer quando será”, disse em nota.

Segundo a empresa, os membros da comunidade permanecerão acomodados no novo local enquanto testes adicionais estão em andamento e até que a segurança da barragem de rejeitos possa ser 100% garantida.

Moradores de bairro de Itatiaiuçu são retirados de região após tocar sirene
Cadastro de moradores que foram retirados do bairro de Pinheiros, em Itatiaiuçu (MG) Foto: Divulgação SAMU Oeste

Vídeo incorporado

Enio Lima

@eniolimamarcou

😥 Meu Deus ! 😥 Imagine você acordar com barulho de sirenes e aviso pra deixar sua casa com urgência devido a ameaça de rompimento de barragem. Pois é, aconteceu nesta madrugada em Barão de Cocais e Itatiaiuçu – MG.

Veja o relato de um morador da região.👇🏽🙏🏽 #MarcouMarcou

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