Marcha da Consciência Negra de SP tem ato contra homem espancado até a morte no Carrefour

João Alberto, 40, foi assassinado dentro de uma loja do Carrefour, em Porto Alegre

SÃO PAULO

Mesmo com a pandemia de Covid-19, as lideranças negras decidiram realizar a 17ª Marcha da Consciência Negra, na tarde desta sexta (20), dia em que é celebrada a data.

O ato cobrou justiça em relação ao assassinato de João Alberto Silveira Freitas, 40, espancado até a morte por dois seguranças do hipermercado Carrefour, em Porto Alegre (RS), nesta terça (19). A vereadora Mariele Franco (PSOL), morta em 2018, também foi lembrada.

Até 18h, a manifestação ocupou a calçada e duas faixas da avenida Paulista em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo), na região central.

Em vez de seguir ao Theatro Municipal, como é de costume na marcha, o grupo saiu em caminhada a uma unidade Carrefour, localizada na rua Pamplona, dentro do Shopping Jardim Pamplona, para a realização de um protesto.

O grupo desceu a via Pamplona gritando “Justiça”, Carrefour assassino”, “Racistas, fascistas não passarão”. “Fora Covas” e “Fora Doria” também foram proferidos.

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Às 18h45, o carro com representantes de entidades negras e os manifestantes chegaram em frente à loja. Alguns começaram a atirar pedras contra a loja, que fechou as portas.

Quando iniciou a depredação, o carro os representantes das entidades negras ameaçaram deixar o local.

A gastrônoma Vivian Serrano viveu momentos de tensão durante o protesto. Ela estava dentro do hipermercado e pagava a conta quando o local foi invadido.

“Entraram quebrando tudo, jogaram carrinho. Jogaram tudo em cima das pessoas e colocaram fogo numa gôndola”, relata.

Os pais da cliente, de 84 e 87 anos, estavam dentro do carro estacionado na entrada da loja e ficaram muito assustados. O automóvel teve o vidro da frente quebrado.

“Jogaram pedra no carro com duas pessoas dentro. Um absurdo. Eu não tenho nada contra manifestação nenhuma. Só não queria que machucassem meus pais. Eu quase apanhei de uma manifestante. Ela disse que eu era contra o movimento.

Flávio Jorge, da executiva da Conen (Coordenação Nacional das Entidades Negras), disse que hoje é um dia para comemorar e chorar.

“Essa marcha está sendo realizada num momento muito positivo, de crescimento da luta negra no Brasil a partir da manifestação ‘Vidas Negras Importam’, dos EUA, que se espalhou pelo mundo e tem reflexo em nosso país”, afirma.

“O lado negativo é que estamos realizando essa marcha numa conjuntura de um governo de extrema-direita que retira e ataca os direitos da população negra e dos trabalhadores”, completa.

Luka Franca, do Movimento Negro Unificado (MNU), diz que “mesmo com todos os protestos que a gente fez, com todas as denúncias sobre racismo e sobre a ação violenta de seguranças e policiais para cima dos nossos corpos”, assassinatos como o ocorrido em Porto Alegre continuam acontecendo.

O ato político, que teve discursos de vários representantes de entidades negras, também pediu justiça pela vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em 2018, lembrou a violência sofrida pela população negra nas periferias e fez críticas aos governos Doria e Bolsonaro.

Até às 18h, quando o grupo começou a deixar a frente do Masp rumo ao Carrefour, não houve intercorrências durante a marcha.

O grupo deixou o local por volta de 18h50. Manifestantes gritavam “Nosso recado ao Carrefour racista foi dado”.