Novo’ general Augusto Heleno surpreende ala militar

Novo’ general Augusto Heleno surpreende ala
militar
Conhecido pelo estilo conciliador e moderado, chefe do GSI adota tom agressivo após receber
críticas por declarações sobre ‘novo AI-5’
10/11/2019 – 13:58
O general reformado do Exército Augusto Heleno Ribeiro, de 72 anos, deixou de vez no cabide a
farda de militar de bastidor. Na semana passada, seu estilo político agressivo ficou mais em
evidência e Heleno virou figura em ascensão do bolsonarismo nas redes sociais. A nova postura do
ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) surpreendeu antigos companheiros de
quartel, que sempre o consideraram um nome da estratégia, do consenso e da moderação.
Ao aparecer ao lado do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro, em 2018, Heleno ajudou a
vencer a resistência ao nome do ex-capitão nas Forças Armadas. Os oficiais refratários a Bolsonaro
avaliaram que o general poderia segurar possíveis rompantes do presidente.
Nos últimos dias, porém, Heleno passou a ocupar a linha de frente da guerra contra a imprensa e a
esquerda, alimentada pelo bolsonarismo. O último embate o deixou exposto a críticas, inclusive da
caserna. No último dia 31, em entrevista ao Estado, o general comentou a defesa feita pelo deputado
Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, de um “novo AI-5” para conter eventuais
distúrbios de rua. As declarações levaram Heleno a ter que se explicar na Câmara.
Decretado em 13 de dezembro de 1968, o Ato Inconstitucional n.º 5 foi a mais dura medida da
ditadura militar (1964-1985). Autorizava o chefe do Executivo, sem apreciação judicial, a fechar o
General Augusto Heleno (Foto: Antonio Cruz/ Agência
Brasil)
11/11/2019 ‘Novo’ general Augusto Heleno surpreende ala militar

Congresso, intervir nos Estados e municípios, cassar mandatos de parlamentares, retirar direitos
políticos de qualquer cidadão e suspender a garantia de direitos como o habeas corpus.
Heleno teve de se explicar. Na Câmara, disse que jamais pensou em resgatar o AI-5, mas adotou um
tom agressivo com deputados da oposição em audiência na Comissão de Integração Nacional e
partiu para ataques nas mídias sociais. Criticado pela atitude radical, Heleno não recebeu apoio
público de nenhum nome de destaque das Forças Armadas, nem do presidente.
No Planalto há quem diga que sua postura está relacionada à sobrevivência política em um governo
com alto grau de belicosidade. Foi isso que levou o ministro do GSI a se reinventar, mais uma vez.
Oficiais-generais da ativa e da reserva receberam com preocupação o comportamento do
companheiro, que é querido e respeitado na área. Consideram que Heleno “exagerou” e “perdeu o
tom” ao partir para o enfrentamento político, ao estilo dos filhos do presidente. A avaliação é a de
que o ministro foi “engolido” pela guerra palaciana ao se associar à militância, e dá sinais de
esgotamento na missão de seguir cada passo de Bolsonaro. A sugestão é que ele deveria se
preservar em nome da biografia.
Na redemocratização, Heleno construiu um perfil de general de boa relação com a imprensa. Ao
comandar o Centro de Comunicação do Exército, foi reconhecido pela melhoria da imagem do
Exército, afetada pelo período militar. O general soube usar a mídia a favor da Força Terrestre,
abrindo os quartéis e mostrando o trabalho para o público externo, aproximando-a da sociedade.
Repetiu o gesto quando foi comandante militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização
no Haiti (Minustah) e chefiou o Comando Militar da Amazônia. Foi na Amazônia que Heleno
entrou em confronto com a esquerda. Ele classificou a política indigenista do governo de Luiz
Inácio Lula da Silva como “lamentável, para não dizer caótica”.
Confronto
Até o meio do ano, Heleno usava pouco as mídias sociais. Em agosto, abriu conta no Twitter. Já
alcançou 230 mil seguidores, 20 mil a mais que o guru bolsonarista Olavo de Carvalho, que tem 210
mil, e quase empatando com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O deputado tem
234 mil seguidores.
Após declaração sobre o AI-5, Heleno foi chamado por Maia de “auxiliar do radicalismo do Olavo”.
Em reação, o general subiu o tom nas postagens contra a imprensa.
11/11/2019 ‘Novo’ general Augusto Heleno surpreende ala militar

Também durante a audiência na Câmara, na semana passada, Heleno teve de responder por outro
momento vivido no centro do poder. Em 1977, o capitão recém-promovido assumiu a função de
ajudante de ordens do então ministro do Exército, Sylvio Frota, período que marcou sua vida.
Defensor fervoroso dos ideais do regime, Frota discordava da distensão proposta pelo presidente
Ernesto Geisel, a quem sonhava suceder. Acabou demitido em 12 de outubro de 1977. O grupo de
Frota ensaiou um levante. Mais de cem oficiais foram exonerados e transferidos para quartéis
distantes de Brasília. Heleno sempre minimizou sua participação no episódio, que já classificou
como “irrelevante”. Lembra que tinha apenas 30 anos na época

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