Palocci delator diz que Lula negociou pagamentos para filho com lobista para beneficiar montadoras

Palocci delator diz que Lula negociou pagamentos para filho com lobista para beneficiar montadoras

Ex-ministro dos governos do PT, colaborador da Lava Jato, depôs nesta quinta, 6, na ação penal em que ex-presidente é réu da Operação Zelotes na Justiça Federal em Brasília

06 Dezembro 2018 | 12h26

Antonio Palocci. FOTO: Rodolfo Buhrer/REUTERS

O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci disse nesta quinta-feira, 6, em depoimento à Justiça Federal do Distrito Federal, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negociou com o lobista Mauro Marcondes Machado, do setor automobilístico, pagamentos a Luís Cláudio Lula da Silva, seu filho caçula, para a aprovação de uma Medida Provisória que tinha como finalidade prorrogar incentivos fiscais de montadoras instaladas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Ao juiz Ricardo Augusto Soares Leite, Palocci afirmou que entre o final de 2013 e o início de 2014 o filho caçula do ex-presidente Lula o procurou na sede de sua consultoria, em São Paulo, para pedir contribuições para o seu projeto de esportes.

“Ele disse que precisava para o evento ‘Touchdown’, que ele lidera, para fechar entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões e que eu ajudasse com recursos via empresas conhecidas, porque eu conhecia muitas. Não pude fazer nada e fui falar com Lula para saber se ele me autorizava a fazer isso. Sempre que alguém me pedia em nome do ex-presidente eu o consultava”, contou.

“Aí, ele (Lula) me disse que não precisaria atender ao pedido de seu filho porque ele disse que tinha resolvido o problema com o Mauro Marcondes. Ele me falou que empresas iriam pagar Mauro Marcondes, porque ele já prestava serviços a elas, e prestou nesta ocasião também, porque iam pagar quantia entre R$ 2 e R$ 3 milhões, e que o Mauro ia repassar recursos ao Luís Cláudio.”

De acordo com o ex-ministro, o lobista demonstrou ter acesso ‘irrestrito’ a Lula. “O ex-presidente me disse que tinha confiança no Mauro Marcondes e que o conhecia desde que era sindicalista no ABC e ele era atuante na área empresarial. Tinha razoável confiança nele. Me disse isso porque fiquei espantado com a forma como o ex-presidente teria interferido na MP de forma tão explícita. Mas ele me disse que ele era de confiança dele e que não haveria problema.”

Palocci foi ouvido no processo em que o ex-presidente Lula é acusado de corrupção por, segundo o Ministério Público Federal, ter recebido propina para a editar a Medida Provisória 471. A MP, investigada na Operação Zelotes, foi aprovada em 2009 e tinha como finalidade prorrogar incentivos fiscais de montadoras instaladas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Palocci prestou depoimento na condição de testemunha de acusação no processo em que Lula, o ex-ministro Gilberto Carvalho e mais cinco são réus. Segundo o MPF, a empresa Marcondes e Mautoni Empreendimentos, do lobista Mauro Marcondes Machado, representava os interesses da CAOA (Hyundai) e da MMC Automotores (Mitsubishi do Brasil) e teria ofertado R$ 6 milhões a Lula e Carvalho. O dinheiro seria para financiar campanhas do PT. Como prova dos repasses indevidos, o MPF elencou uma série de troca de mensagens e anotações apreendidas com os alvos da Zelotes. Todos negam as acusações do MPF.

O depoimento de Palocci é o primeiro concedido após sua passagem para a prisão semiaberta domiciliar, na última quinta-feira, 29. Por conta disso, ele foi feito por meio de videoconferência em São Paulo. O ex-ministro foi arrolado como testemunha da acusação e da defesa do lobista Mauro Marcondes Machado, réu na Zelotes.

Delator na Lava Jato, Palocci obteve o benefício após a 8ª Turma Penal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região entender que, devido à sua colaboração premiada, o ex-ministro poderia cumprir metade de sua sentença em regime diferenciado.

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‘Malandro num dá bobeira’

Ex-executivo da Petrobrás César Joaquim Rodrigues da Silva, o ‘Dehl’, ou ‘Flipper’, ou ‘Golfinho’, caiu no grampo da Operação Sem Limites, fase 57 da Lava Jato; ele teria sido beneficiário de propinas milionárias de gigantes do petróleo internacional que faziam negócios com a maior estatal brasileira

Julia Affonso e Ricardo Brandt/SÃO PAULO e Jamil Chade/SUÍÇA

06 Dezembro 2018 | 12h15

E-mails de executivos e ex-funcionários da Petrobrás indicaram à Operação Sem Limites, fase 57 da Lava Jato, deflagrada nesta quarta-feira, 5, a movimentação de US$ 31 milhões em propinas. As mensagens, segundo a PF, apontaram a participação de funcionários da estatal ligados à Diretoria de Abastecimento em um esquema de corrupção na área de trading de produtos da estatal.

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Sem Limites mira também potências do mercado internacional do petróleo como VitolTrafigura e Glencore, grupos com faturamento superior ao da maior estatal brasileira. Segundo os investigadores, as empresas usavam o grupo formado pelos intermediadores Luiz Eduardo Loureiro Andrade, Carlos Henrique Nogueira Herz e Bo Hans Vilhelm Ljungberg para interceder negócios de trading junto a executivos da Petrobrás.

O inquérito aponta que as trading companies corrompiam funcionários da Petrobrás, ‘e com isso a estatal vendia um produto por um preço mais baixo que o justo e comprava a um preço mais alto que o justo’. O valor da comissão paga, com parte repassada a executivos da Petrobrás, era denominado pelo grupo como ‘Delta’.

Uma troca de e-mails analisada pela PF ocorreu em 25 de setembro de 2011. Segundos investigadores, estes e-mails reforçam ‘o vínculo criminoso’ e também ‘a divisão ordenada de tarefas entre os integrantes do grupo criminoso’.

Suspeito de receber propinas, Carlos Roberto Martins Barbosa, ex-gerente da área de Marketing e Comercialização da Petrobrás, escreveu a três interlocutores, sob o codinome ‘Phill’.

O executivo se dirigiu a Rodrigo Berkowitz, funcionário da Petrobrás ligado à área de trading de codinome ‘Robson Santos’, a Luiz Eduardo Loureiro Andrade, o ‘Tiger’, operador de propina, e César da Silva, o ‘Dehl Phin’, ex- funcionário do Marketing da estatal.

“Cada um de nós tem um papel dentro do processo e todos são igualmente importantes para o todo: quem joga na ponta e na retaguarda. Às vezes, coisas que nós nem percebemos no dia a dia estão sendo feitas nos bastidores em prol de todos”, escreveu Martins Barbosa.

“Esse ano ainda tivemos a felicidade de conhecer o Tiger que abriu novas perspectivas para o nosso trabalho com a sua bagagem profissional e credibilidade.”

Em outro trecho, Berkowitz escreve aos mesmos interlocutores. “Quando aceitei o convite para esta missão, graças ao convite do Phill, imaginei que estava diante de uma grande oportunidade, mas nunca imaginaria que seria tão boa”, afirmou. “Tenho muita gratidão ao Phill por ter confiado em mim, ao Golfinho que se dedica muito ao nosso trabalho diariamente e sempre me ajuda quando pode e ao Tigre que mudou nossa perspectiva de ganho com os novos parceiros e tenho certeza que vamos trazer a Trafi pro nosso lado.”

Uma terceira mensagem destacada pela PF foi enviada por César da Silva a Martins Barbosa. O ‘Phill’ havia dito que ‘Dehl Phin’ estava ‘no paraíso’. “Longe da panela de pressão daqui.”

Na resposta, César da Silva escreveu. “Sim senhor, chefe. A gente tamos pra fazê o melhor possível, porque malandro num dá bobeira. Fico daqui só imaginando a cara do morcego, rindo à toa, sem conseguir disfarçar.”

Por ordem da juíza Gabriela Hardt, da 13.ª Vara Federal de Curitiba, que autorizou a deflagração da Operação Sem Limites, foram presos Marcus Antônio Pacheco Alcoforado, ex-empregado da Petrobrás e ex-gerente da área de marketing e comercialização, Carlos Henrique Nogueira Herz, operador de propina, Márcio Pinto de Magalhães, representante da Trafigura no Brasil, Gustavo Buffara Bueno, advogado, André Luiz dos Santos Pazza, funcionário do escritório de advocacia, e Paulo César Pereira Berkowitz, pai do funcionário da Petrobrás Rodrigo Garcia Berkowitz.

Martins Barbosa, ex-gerente da Área de Marketing e Comercialização da Petrobrás, não foi preso ‘por circunstância excepcionais’. O executivo está internado há 3 dias em um hospital no Rio. A juíza autorizou, após apresentação de laudo médico, que o mandado não seja cumprido enquanto se mantiver o quadro clínico.

A reportagem está tentando contato com os citados. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A DEFESA

Procurada pela reportagem do Estado, a Trafigura indicou que ‘não comenta assuntos legais’ e disse não ter nada a dizer ao ser questionado se foi alvo de buscas também na Suíça. A Glencore indicou também que, por enquanto, não teria nada a dizer.

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