RESUMÃO DO CLEBER TOLEDO-BOM DIA – Rompimento da UT permitiu a oxigenação política do TO, mas a um custo elevado

BOM DIA – Rompimento da UT permitiu a oxigenação política do TO, mas a um custo elevado

A curta mas intensa história política do Estado pode ser dividida em antes de depois da União do Tocantins (UT), coligação partidária surgida da criação do Estado e que teve como seu líder maior o ex-governador Siqueira Campos (DEM). A UT foi a representação máxima da força do siqueirismo, que elegia desconhecidos e tirava da vida pública com uma simples decisão monocrática de seu cacique-mor. Assim, impedia a oxigenação política do Estado, que viu ceifada inúmeras carreiras promissoras.

No entanto, com a da hegemonia da UT, Siqueira sempre manteve as contas públicas sob controle. Para se ter ideia disso, ao final do terceiro mandato (1999-2002), o ex-governador entregou o Estado a seu sucessor, Marcelo Miranda, na época eleito pelo PFL, um dos diversos partidos utistas, com a folha representando apenas 35,7% da Receita Corrente Líquida (RCL).

Dessa forma, se havia, de um lado, um impedimento nos avanços democráticos que País todo experimentava com o fim do regime militar em 1985, de outro, os governos Siqueira Campos conseguiram manter a finanças do Estado equilibradas.

As crises da UT começaram ainda na campanha de Marcelo Miranda, em 2002, já com foco nas eleições de 2006. Aliados dele acusavam o então senador Eduardo Siqueira Campos de se apresentar nos palanques — quando falava por último, como representante do pai — como candidato a governador pleito estadual seguinte.

O estremecimento entre os dois grupos se aprofundou depois que Marcelo assumiu em janeiro de 2003 e já estava insuportável internamente nas eleições municipais de 2004. Os marcelistas acusavam os Siqueira de terem abandonado a candidatura à reeleição da então prefeita de Palmas, Nilmar Ruiz, para imprimir a derrota dela para Raul Filho ao governador e seu pai, o poderoso secretário estadual de Infraestrutura, Brito Miranda, que funcionava como primeiro-ministro da gestão.

O rompimento ganhou corpo em abril de 2005, quando Marcelo deixou o PSDB— partido da UT para o qual tinha sido levado por Eduardo e Siqueira logo após as eleições de 2002. Em maio, o governador se filiou ao MDB. É neste momento que começa uma reconfiguração total do mapa político tocantinense. Até 2004, a UT tinha cerca de 133 dos 139 prefeitos, mas, com as brigas internas, viu naquele ano a oposição — formada apenas por MDB, PPS, PDT e PT — crescer exponencialmente.

Com Marcelo contra o siqueirismo, a oposição se uniu a ele e a maioria dos líderes da UT deixou o grupo de Siqueira para acompanhar o governador. O único partido a largar os utistas foi o PFL da então deputada federal Kátia Abreu. O partido era presidido pelo senador João Ribeiro. Kátia, muito prestigiada pela cúpula nacional, conseguiu uma intervenção e ficou com o comando pefelista.

Essa revolução da política do Tocantins movimentou prefeituras, câmaras e Assembleias. Centenas de líderes migraram para a base de Marcelo. Começou aí a oxigenação da política do Tocantins, que nas eleições de 2018 se consolida, com nenhum representante da velha UT na disputa. É a primeira vez que isso ocorre na história do Estado. Todos os candidatos que concorrem ao cargo de governador neste ano surgiram no período pós-rompimento do grupo de Siqueira: Mauro Carlesse (PHS), Carlos Amastha (PSB), Márlon Reis (Rede), César Simoni (PSL) e Bernadete Aparecida (Psol).

A União do Tocantins foi extinta nas eleições de 2010, quando, pela primeira vez, desde a criação do Estado não teve candidato, ainda que Siqueira Campos estivesse na disputa, que venceria, com 1 ponto percentual de vantagem, o então governador Carlos Gaguim. O fim da UT foi uma das exigências da já senadora Kátia Abreu para apoiar Siqueira Campos naquelas eleições. A coligação se chamou “Tocantins levado a sério”.

Se é verdade que, a partir do naufrágio da UT, o Estado passou a respirar os ares da democracia, também é que foi se afundando nas brigas dos grupos pelo comando do Palácio Araguaia até se configurar a atual crise, a pior de sua curta história.

Para vencer o siqueirismo em 2006, Marcelo implantou, no ritmo dos interesses corporativos dos sindicatos de servidores, Planos de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) totalmente desconectados da realidade da arrecadação. Foi assim que, depois de herdar um Estado enxuto de Siqueira, com os 35,7% da Receita Corrente Líquida com a folha, iniciou o segundo mandato em 2007 com esse índice já em 44,7%.

Com a cassação de Marcelo em 2009, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gaguim, para buscar a reeleição, também fez concessões e ainda teve o acordo para pagamento da indenização milionária dos policiais militares, conquistada no Supremo Tribunal Federal (STF). O resultado é que entregou o Estado para Siqueira, em 2011, com 47,7% da RCL com a folha.

Siqueira jogou o Estado em outra crise institucional ao renunciar em 2014 e entregou o governo a Sandoval Cardoso com 48,7% de comprometimento da RCL. Marcelo voltou ao governo em 2015 com 50,9%.

O emedebista foi cassado em março deste ano e passou o Estado a Mauro Carlesse com 55% e agora o Tribunal de Contas do Estado (TCE) já aponta que o Tocantins extrapolou a RCL com absurdos 58,22%.

Dessa forma, a extinção da UT e o consequente fim da hegemonia do siqueirismo deram novos ares à política tocantinense, permitindo o surgimento de novas forças e a recomposição dos grupos. Mas os embates que todo esse processo de luta pelo poder gerou levaram o Estado à bancarrota.

É hora das correntes políticas fazerem o encontro da democracia com a austeridade, o planejamento e a seriedade na gestão pública. Ou a situação do Rio de Janeiro será a nossa próxima parada.

CT, Palmas, 10 de agosto de 2018.RESUM

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