SEM A LAVA JATO BRASIL PERDE CREDIBILIDADE INTERNACIONAL:PARECE BRIGA DE ESCOLA, MAS É A CÚPULA DO JUDICIÁRIO

Carolina Brigido Foto: Agência O Globo

CAROLINA BRÍGIDO

PARECE BRIGA DE ESCOLA, MAS É A CÚPULA DO JUDICIÁRIO

Ministros do Supremo entram em rota de colisão com o Ministério Público e a Lava Jato
Sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) Foto: Carlos Moura / STF
Sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) Foto: Carlos Moura / STF

Discussão existe em todo lugar: no bar, na rua e também na cúpula do Judiciário. Em geral, quando o bate-boca é entre juízes ou procuradores, ele vem embalado com data venia e outros termos em latim, para dar a impressão de que as ofensas são respeitosas. Na última quinta-feira, como se a professora tivesse saído da sala, os ânimos se exaltaram. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), desferiu em plenário adjetivos pouco jurídicos contra procuradores da Lava Jato: “Gentalha, são uns cretinos!”.

Ele também disse que os procuradores estudaram em Harvard, mas “não entenderam nada”. E que não sabiam o que era processo. “Desavisados, voluptuosos, voluntaristas, infelizes, reles, desqualificados” engrossaram a lista de adjetivos. Mendes não iniciou os ataques. Dias antes, o procurador da Lava Jato Diogo Castor tinha escrito em artigo que a Segunda Turma do STF, da qual o ministro faz parte, ensaiava “um golpe” contra as investigações. Não se chama Gilmar Mendes de golpista sem ouvir resposta.

A discussão nasceu em torno do julgamento que definiria a Justiça Eleitoral como foro para conduzir processos da Lava Jato sobre crimes ligados à prática de caixa dois. Para os procuradores, a decisão enfraquece as investigações, porque o ramo da Justiça não é especializado em crimes complexos. Mais uma ofensa do Judiciário, na interpretação de ministros do STF.

Fica difícil para um leigo compreender o que está em jogo. Mas facilita o entendimento quando as partes simplificam: golpistas de um lado; cretinos de outro. De ambas as partes, houve exageros desde o início. A começar pelos procuradores da Lava Jato, que vieram a público dizer que as investigações seriam “enterradas”. Deve ser a milésima vez que um julgamento, na visão do Ministério Público, “abre brecha para destruir a Lava Jato”.

Para alimentar a fogueira, o presidente do STF, Dias Toffoli, instaurou inquérito, no mesmo dia do julgamento, para investigar ofensas contra a Corte. Entre os alvos da investigação estão procuradores da Lava Jato. A medida dá mais munição a quem acusa a Corte de sufocar as investigações.

“O que se trava aqui é uma disputa de poder”, resumiu Gilmar Mendes. Ele se referia à suposta ambição dos procuradores, mas a frase serve para definir a relação entre o STF e o Ministério Público. O procurador-chefe da Lava Jato, Deltan Dallagnol, não se intimidou. Logo depois do julgamento, avisou no Twitter: “Hoje começou a se fechar a janela do combate à corrupção política que se abriu há cinco anos, no início da Lava Jato”.

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