Surge avalanche de distúrbios emocionais no povo israelense

Surge avalanche de distúrbios emocionais no povo israelense

Shahar Ron, 46 anos, e sua filha May, 14, sobreviveram ao maior pogrom dos poucos anos do século XXI, realizado em 7 de outubro pelo Hamas.

 

 

Se recuperando de um tiro que levou no quadril, Ron diz que não quer receber ajuda psicológica, porque se sente “incompreendida” por aqueles que não viveram os massacres.

Esse é o mesmo sentimento que acometia os judeus que sobreviveram ao genocídio industrial promovido pelos nazistas, a experiência coletiva mais aterradora da história da humanidade.

Ao voltar dos campos, muitos perceberam que, para além de não terem uma vida na forma como anteriormente as concebiam, as pessoas não queriam saber das histórias que eles tinham para contar sobre os campos de extermínio.

Martin Gilbert, em seu livro “Holocausto, história dos judeus da Europa na II Guerra Mundial” – uma das principais obras sobre a Shoah, escreve:

“Os judeus que tinham sobrevivido, entenderam que as suas experiências não podiam ser facilmente transferidas, se é que podiam” 1. Em carta para sua irmã que morava na Palestina, Dow Lewi egresso de Birkenau, lhe dizia que ‘ela não poderia imaginar sequer 1% do sofrimento, medo, humilhação e todo o tipo de intimidações que sofremos.’ 1

E acrescentou:

“Pessoas que vivem e pensam como pessoas normais possivelmente não conseguem entender”1

Foi deste modo que muitos judeus, forçados ao mutismo, enclausuraram suas memórias e, com elas, seus traumas.

Ao conjunto de crenças, regras e predicados que regem nosso modo de ver e interpretar a nós mesmos e ao mundo, denominamos “esquemas”.

Diante de um trauma, que desestrutura os gerenciadores cognitivo-comportamentais, o cérebro entra em processo adaptativo, buscando reorganizar tais esquemas.

Com a arquitetura neural ferida, cognição, comportamento, capacidades afetivas e fisiologia entram em desequilíbrio e o desafio é recuperar a homeostase do sistema.

A questão é como fazer isso já que as experiências traumáticas – armazenadas nas memórias cognitiva, emocional e motora – geram um padrão característico de estimulação e resposta, promovendo um looping de ansiedades que retroalimentam todo o mecanismo.

PERDA AMBÍGUA, REALIDADE PARTILHADA

Merav Roth, psicanalista e professora da Universidade de Haifa, está atendendo “pessoas que ficaram trancadas em abrigos por 20 horas, apavoradas com o som dos disparos incessantes, gritos em árabe” além de “vítimas cujos entes queridos foram torturados ou que tiveram esposa, marido e filhos massacrados”2. Sem falar nos sequestrados.

Ella Ben Ami, 23 anos, acordou com o som de bombas caindo sobre o kibutz Be’eri, e só conseguiu sobreviver porque ficou 18 horas abrigada no quarto seguro, tentando manter contato com os pais que moravam em outra rua do kibutz. Assim que o perigo maior passou, ela correu até a casa dos pais – passando por um mar de cadáveres – onde não os encontrou. Haviam sido levados.

A luta dos profissionais e voluntários se constitui em construir uma aproximação com essas vítimas de modo que possam falar dessas terríveis experiências e, ao ressignificarem-nas, dar-lhes outra perspectiva, algo que lhes permita prosseguir com suas vidas. Mas como fazer isso com israelenses que viram entes seus serem queimados vivos, não restando, portanto, restos mortais a serem pranteados?

Esta situação leva à experiência de perda ambígua. Definida como a ausência física de alguém que pode estar vivo – sequestrado, por exemplo – tal perda “leva à confusão contínua e impossibilita o encerramento e os processos de luto”2, explica a Dra. Rivka Tuval-Mashiach, professora de psicologia da Universidade Bar-Ilan, de Tel Aviv. Com o “luto em suspenso”, o ciclo de superação nem tem início.

Os profissionais também sofrem. Tratar pacientes com estresse pós-traumático pode afetá-los e isso é particularmente verdade numa sociedade pequena em que todos os cidadãos estão expostos aos mesmos perigos em maior ou menor grau, como é a israelense.

O fato de, praticamente, cada família ter um membro que serve nas forças armadas, leva ao que foi denominado na literatura como “realidade partilhada”.

Tuval-Mashiach observa que “a realidade partilhada, se dá quando terapeutas e socorristas partilham a mesma realidade que seus clientes; todos conhecem pelo menos alguns dos feridos ou mortos e partilham a ameaça contínua de Gaza, enquanto, ao mesmo tempo, a maioria apoia as comunidades sobreviventes do massacre, principalmente através do voluntariado”3.

As horríveis imagens de pessoas ultrajadas, com seus corpos expostos e vilipendiados, executadas, após suplicarem por suas vidas, supliciadas na frente dos filhos e dos pais com direito a eviscerações in vivo, tudo sob o esgar de terroristas que de tão exultantes ligavam para os pais para se gabar de terem matado “dez judeus com as próprias mãos”4, faz lembrar a Shoah.

Gerações que ouviram seus parentes mais velhos falarem das terríveis provações que passaram na II Guerra, sentiram na pele, 1.300 deles de forma horrenda e literal, o que seus avós sofreram. Corpos dilacerados e pessoas tangidas como gado – como os que foram incinerados em Auschwitz – trouxeram a pior parte da história para os kibutzin, numa escala de horrores que, pensava-se, havia ficado para trás.

José Antonio Mariano. Psicanalista em São Caetano do Sul, SP com artigos publicados em várias revistas de saúde mental; jornalista especializado em história militar e defesa, autor dos livros “Enquanto formos vivos, a Polônia não perecera – A Polônia nos campos de batalha da II Guerra Mundial” e “A segunda queda, o fim do império colonial francês na Indochina e o começo da era americana no Vietnã”.

Fontes:

1 GILBERT, M. Holocausto, história dos judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Editora Hucitec, 2010, p. 868

2 AFP. “Nous ne sommes pas vraiment vivants”: après les massacres, la détresse psychique des rescapés israéliens.GEO. Gennevilliers, França: 27 out 2023. Disponível em: https://www.geo.fr/geopolitique/nous-ne-sommes-pas-vraiment-vivants-apres-les-massacres-la-detresse-…. Acesso em 25 nov 2023

3 TUVAL-MASHIACH, R. The psychological impact of the Hamas attack in Israel, Psychiatric Times. New Jersey, EUA: 24 out 2023. Disponível em: https://www.psychiatrictimes.com/view/the-psychological-impact-of-the-hamas-attack-in-israel.

Acesso em 25 nov 2023

4 GUNTER, J. Israel mostra imagens das câmeras corporais do Hamas no ataque de 7 de outubro. BBC News. Londres, RU: 24 out 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4n4y7364jno. Acesso em 25 nov 2023

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