A grande matança

A grande matança

Entre agosto e outubro de 1942, a Operação Reinhard eliminou 1,32 milhão de judeus, 20% das vítimas do Holocausto. A média era de 15 mil mortos ao dia. Provas estavam nos registros de transporte ferroviário. Entender esse mecanismo evitaria novos genocídios

Crédito: Buyenlarge \ UIG

SEM RESISTÊNCIA Deportados acreditavam que iriam repovoar áreas remotas: quase 10% da população judaica mundial assassinada em 90 dias (Crédito: Buyenlarge \ UIG)

André Vargas

Album / akg-images / Fototeca Gilardi

A Segunda Guerra Mundial segue como uma fonte abundante das mais terríveis surpresas, mesmo 74 anos após seu término. A mais recente mostra que a máquina nazista de extermínio de judeus só não foi mais eficiente por mera falta de vítimas. Dos seis milhões de mortos nos campos de concentração, cerca de 20%, 1,32 milhão, pereceu ao longo de apenas três meses, entre agosto e outubro de 1942. Em termos gerais, quase 10% da população judaica mundial de então morreu naqueles 90 dias, a uma média de 15 mil por dia, revela uma pesquisa do biomatemático Lewi Stone, da Universidade de Tel Aviv, em Israel.

Como os nazistas tentaram eliminar as evidências de seus crimes quando a derrota se mostrou inevitável, apagando todos os registros possíveis, Stone buscou dados indiretos, analisando as compilações do historiador do Holocausto Yitzhak Arad sobre as movimentações de 480 “trens especiais” para os campos de extermínio de Treblinka, Sobibor e Belzec, na Polônia. A Deutsche Reichsbahn, a companhia ferroviária germânica, manteve os registros, revelando que a maioria dos “deportados” veio de 393 cidades, vilas e guetos poloneses. A justificativa para a viagem era que as vítimas deveriam repovoar áreas remotas do leste. Como o número de sobreviventes é conhecido, não foi difícil determinar o de mortos, mesmo com os corpos reduzidos a cinzas.

O extermínio sistemático foi batizado de Operação Reinhard, em homenagem ao idealizador da chamada Solução Final, que consistia na eliminação de todos os judeus residentes em territórios ocupados pelos alemães. Nazista impiedoso, Reinhard Heydrich era chamado por Hitler de “o homem com coração de ferro”. Ele foi morto em Praga pela resistência tcheca, pouco antes do início da operação. Com isso, a responsabilidade ficou com Odilo Globocnick, um austríaco da SS. Anos depois, Globocnick seria considerado pelo historiador Michael Allen “o indivíduo mais vil da mais vil organização conhecida”. Em sua conta figura a eliminação da resistência nos guetos de Varsóvia e Byalistok, com mais 600 mil vítimas, e a criação de campos de concentração. Globocnick cometeu suicídio com cianeto ao ser capturado por britânicos na Áustria, em maio de 1945.

Máquina ociosa
Iniciada em março de 1942, a operação eliminou 1,7 milhão de judeus e só não foi mais eficiente pela absoluta falta de gente para matar. Ou seja, a máquina de morte nazista era tão eficiente e abominável que apresentou capacidade ociosa mais de dois anos antes do final do conflito. Porém, se tivessem vencido os soviéticos na Frente Leste, o processo certamente teria se repetido contra judeus e eslavos da Rússia, Ucrânia e Belarus. Tanto que parte dos que sobreviveram trabalharam como escravos no esforço de guerra em instalações próximas aos campos, que depois incluiria o de Majdanek.

De acordo com Lewi Stone, a rapidez impediu qualquer tentativa de resistência. “O massacre acabou antes que houvesse tempo para uma resposta organizada”, diz. Os detalhes seguem surpreendentes quando comparados com eventos recentes. O genocídio de Ruanda, em 1994, matou 800 mil pessoas em 100 dias, com média diária de 8 mil. Sobre a relevância dessa conta macabra, Stone explica que é preciso entender as causas e padrões desses mecanismos criminosos para ficarmos alertas. “Bósnia, Ruanda, Darfur, Burundi, Síria e Myanmar passaram por operações de assassínio em grande escala nos últimos 25 anos. Alguns dos quais poderiam ser evitados”, alerta.

A força dos sobreviventes

7 ANOS Estoicismo e atenção à saúde foram despertados (Crédito:Omar Marques / Anadolu Agency)

A vontade de viver pode estar oculta na mente ou no DNA, necessitando de uma terrível provação para ser ativada. É o que sugere um estudo israelense conduzido entre sobreviventes do Holocausto. Foi descoberto que, na média, eles viveram 84,8 anos, contra os 77,7 anos da média da população local. Divulgada este mês, a pesquisa analisou usuários de um serviço privado de saúde e foi conduzida entre 1998 e 2017. Foram estudados os históricos médicos de 38 mil pessoas nascidas na Europa, entre 1911 e 1945, comparando-as com 35 mil nascidos em Israel no mesmo período. O grupo de controle não passou pelo sofrimento da perseguição. Apesar de viverem 7 anos a mais, os que saíram dos campos de concentração e guetos foram mais propensos a males crônicos, como hipertensão (16%), doença renal (11%) e demência (7%). Características como estoicismo e resistência física, além da maior consciência para com a saúde decorrente da experiência traumática, podem estar entre as razões da longevidade. Os resultados provocarão novos estudos. “Foi uma cruel seleção darwinista que os levou a viver mais”, afirmou o pesquisador Gideon Koren.

você pode gostar também